A fascinante história de 3 brinquedos mais populares no Brasil

Os brinquedos podem ser caracterizados como objetos de atividade lúdica, normalmente voltados para o lazer e associado às crianças.

Até meados do século 19, as crianças brasileiras tinham poucos brinquedos, ou nenhum. Durante o Império, meninos e meninas que pertenciam a famílias abastadas podiam contar com produtos europeus, caríssimos e raros. As demais tinham de se virar com o que havia à mão. Muitas vezes, construíam seus próprios objetos. Um deles era a peteca, de herança indígena e um dos primeiros brinquedos genuinamente brasileiros.

A situação só começou a mudar após a Revolução Industrial, quando surgiram as primeiras fábricas de brinquedos na Inglaterra, Alemanha e França. “Eles usavam muitos materiais da época, como a folha de flandres, para fabricar carrinhos e carruagens”, explica o empresário Flavio Pacheco. Dono de uma coleção de 10 mil brinquedos, Pacheco lembra que parte da produção europeia era exportada para outros países, entre eles o Brasil.

Assim chegaram as primeiras bonecas de porcelana, trenzinhos de lata ou madeira e soldadinhos de chumbo. Mas a posse deles permaneceu um privilégio de poucos. “Apenas a classe alta tinha acesso aos importados”, diz Pacheco. A produção nacional começou com a chegada dos imigrantes europeus, entre o final do século 19 e início do século 20.

Eram pequenas fábricas de produtos artesanais e grande parte deles reproduzia objetos da vida adulta. “Os brinquedos eram uma maneira de ‘adestrar’ a criança para as profissões que elas iriam exercer no futuro”, diz a historiadora Ludmila Érica Cambusano de Souza.

Para os meninos, eram fabricados pequenos jogos de ferramentas, caldeirinhas de fábricas e trenzinhos.

Para as meninas, objetos que a preparassem para a futura vida doméstica como casas de bonecas, bonecas, panelinhas e fogões.

Durante a Primeira Guerra, a dificuldade para a importação de produtos europeus alavancou diversos setores da indústria nacional, entre eles o de brinquedos. Apenas em São Paulo, nas primeiras décadas do século 20, havia perto de 80 pequenas fábricas de brinquedos.

Nessa época, duas se destacaram: a Metalma, de 1931, e a Estrella, de 1937. A primeira era uma divisão das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo (IRFM), e a principal matéria-prima eram as sobras das folhas de flandres utilizadas para a fabricação de latas da indústria alimentícia.

Hoje, vamos conhecer a história de 3 brinquedos inesquecíveis: a boneca Barbie, o Banco Imobiliário e do Autorama:

A Boneca Barbie

Você sabia que foi uma empreendedora feminista quem criou o primeiro brinquedo fashionista e empoderado do planeta? Cofundadora da Mattel, a americana Ruth Handler percebeu que sua filha, Bárbara (cujo apelido era Barbie – ahá!), adorava trocar as roupas de suas bonecas de papel, mas não havia no mercado opções de pano ou plástico com feição de uma adolescente em que ela pudesse se inspirar, só de bebês. Em março de 1959, então, Ruth e o marido, Elliot, lançaram a Barbie em uma feira nova-iorquina.

A Barbie foi lançada oficialmente na Feira Anual de Brinquedos de Nova York em 9 de Março de 1959

A ideia de Ruth era mostrar que, por meio da boneca, a menina podia ser o que quisesse. “Barbie sempre representou o fato de que a mulher tem escolhas”, dizia ela, que morreu aos 86 anos em 2002. Sonha ir à lua? A Barbie Astronauta (de 1965) foi, antes mesmo do homem (1969). Quer ser médica, presidente ou desenvolvedora de jogos? Em seis décadas, Barbie já teve mais de 180 profissões, sempre retratando desejos da sociedade na época.

O design da Barbie foi inspirado em uma personagem de quadrinhos pornô alemã, chamada Bild Lilli, e isso ninguém esconde. Mas os detalhes não são oficiais: de acordo com o jornalista americano Jerry Oppenheimer, o designer que fez a boneca era viciado em sexo e criou as medidas dela de acordo com gostos pessoais.

Foi depois de criar a Barbie, em 1959, que a Mattel entrou no ranking das 500 maiores empresas dos EUA. Demorou 3 anos para que eles conseguissem atender à demanda dos consumidores, de tanta procura pela boneca.

Desde que nasceu, Barbie tem conexão com o mundo fashion: na primeira versão, vestia maiô listrado, óculos gatinho e brincos de argola. De lá para cá, virou ícone e ganhou versões customizadas por estilistas como Oscar de La Renta (1984), Diane Von Furstenberg (2006) e até o brasileiro Alexandre Herchcovitch (1999). A boneca ainda protagonizou desfile na semana de moda de NY.

Por incrível que pareça, esse sempre foi o mote da marca, já que era importante a criança se identificar com o brinquedo. Tanto que, em 1968 – em apoio ao movimento de igualdade que tomava conta dos EUA –, surgiu a primeira boneca negra (Christie, amiga da Barbie). Em 1980, foi lançada a coleção Diversidade, com a primeira Barbie negra, além da italiana, hispânica, etc. “Inspirar e nutrir o potencial ilimitado em cada garota” é a frase que estampa o hall de entrada na sede da fábrica, em Los Angeles… Para ninguém esquecer!

Se a Barbie fosse uma mulher de 1,68 m, ela teria 50 cm de cintura, 69 de busto e 73 de quadril. Uma mulher tão magra deixaria de menstruar normalmente, segundo uma pesquisa da Universidade de Helsinque. Ainda assim, a britânica Sarah Burge achou boa ideia gastar 500 mil libras em cirurgias plásticas para ficar igual à boneca. Por ano, ela paga cerca de 22 mil para manter tudo no lugar.

Além das comemorações em torno dos 60 anos em 2019,  a marca continua inspirando garotas por meio de projetos como o #RoleModels, que presenteia artistas e personalidades tipo Nicki Minaj (abaixo), com uma boneca exclusiva feita à sua semelhança, e a linha Barbie Mulheres Inspiradoras, que homenageia grandes nomes, como Frida Kahlo (e pode ser comprada). Parabéns, Barbie!

Banco Imobiliário

Vale destacar que ao longo dos anos os brinquedos passaram a assumir um papel que vai além da simples diversão e passou a ser visto como estimulante para o desenvolvimento cognitivo da criança, que envolve uma série de habilidades como atenção, percepção, memória, raciocínio, juízo, imaginação, pensamento e linguagem. Muitos jogos de tabuleiro desempenham implicitamente essa função como o Banco Imobiliário.

O jogo foi criado pelo americano Charles Darrow foi lançado em 5 de novembro de 1935, nos Estados Unidos chamado de Monopoly (no Brasil, Banco Imobiliário)  e é, sem dúvida, um dos jogos de tabuleiro mais populares do mundo.

Tanto que a estimativa da Hasbro, que produz o jogo, é que mais de 200 milhões de unidades já tenham sido vendidas. Um sucesso e tanto para um brinquedo que começou a ser vendido quando os americanos ainda enfrentavam o efeito da Grande Depressão provocada pelo “crash” da Bolsa de Nova York, em 1929.

O jogo foi criado por Darrow, que perdera o emprego de vendedor de sistemas de aquecimento justamente por causa da crise se baseou em outro jogo, o The Landlord’s Game (O Jogo do Senhorio), que fazia uma crítica ao capitalismo ao mostrar que monopólios são fontes de desigualdade e pobreza. Inverteu a lógica e criou um tabuleiro no qual o cidadão comum pode virar um magnata de mentirinha.

A primeira versão de Darrow foi feita em uma toalha de mesa e desde o início, o passatempo dava ao jogador a possibilidade de comprar e vender terrenos em locais valorizados — no caso da versão brasileira no Rio de Janeiro, por exemplo, as avenidas Atlântica e Vieira Souto, por exemplo. Por seu conteúdo pró-capitalismo foi proibido na extinta União Soviética até 1987.

O jogo consiste na compra e venda de propriedades como bairro, casas, hotéis, empresas, de forma que vença o jogador que não for à falência, ou o jogador que tiver mais propriedades compradas em mãos.

Aqui no Brasil, o Banco Imobiliário foi lançado pela Estrela em 1944.

O Banco Imobiliário foi proibido na União Soviética até 1987

3 Curiosidades sobre o Banco Imobiliário:

  • A partida mais longa do Banco Imobiliário durou 59 dias.
  • Em 2010, foi apontado como o brinquedo mais bem-sucedido em vendas na história do Brasil, com mais de 30 milhões de unidades vendidas.
  • E fãs mais radicais já passaram 45 dias embaixo d’água, jogando, e outros 16 dias dentro de um elevador.

Com o tempo, a Hasbro desfez o acordo e passou a comercializar diretamente o produto no país, utilizando o nome original Monopoly. A Estrela então realizou pequenas alterações nas regras, no design do tabuleiro e das peças, para diferenciá-lo do jogo original.

A Hasbro lançou uma versão limitada Monopoly com tema da Copa do Mundo no Brasil em 2014

De lá para cá, o jogo evoluiu e, hoje, oferece até um sofisticado sistema de cartão de crédito — o brinquedo vem com uma maquininha semelhante à usada por lojistas. Também é possível comprar e vender hotéis, indústrias e concessionárias de serviços públicos. Em tempos de internet, os aficcionados podem jogar no celular ou pelo Facebook.

O Autorama no Brasil

Inventado na Inglaterra em 1956 foi batizado de Slot Car nos Estados Unidose já era um brinquedo bastante difundido em 1961.

Conta a história que nessa época, alguns comandantes da Varig trouxeram a novidade para o Brasil, especificamente para Porto Alegre. Já em São Paulo, no mesmo período, um grupo de senhores começou também a se interessar pelo esporte, e com martelos e talhadeiras construíram uma pista montada em um quintal no bairro do Brás. Estava fundada a primeira escuderia do Brasil, a “Scorpius”, local onde treinavam e competiam. Os carrinhos eram preparados por eles mesmos. Dizem que o nome escolhido se justifica, porque todos os integrantes da escuderia eram do signo de escorpião.

Em 1963 a loja Mobral Modelismo do Brasil começou a importar equipamentos do autorama, que passou a ser produzido no mesmo ano pela Brinquedos Estrela, ainda sob licença da fábrica americana A.C.Gilbert. A Atma reproduziu os carrinhos da também americana Aurora.

O lançamento da Estrela aconteceu em São Paulo, no Departamento de Educação Física e Esportes (DEFE) em uma grande competição, na qual Emerson Fittipaldi participou e ficou com o terceiro lugar.

A partir daí, o autorama virou “moda”, mas não por muito tempo. Por ser importado, o material utilizado tinha um custo muito elevado, o que ocasionou o fechamento de lojas e o fim de muitas equipes.

Em 1970, a Estrela lançou o autorama nacional, e três anos mais tarde foi organizado o Primeiro Campeonato Brasileiro de Autorama em oito cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Belo Horizonte e Santos. Quase sete mil competidores participaram.

Um dos fatores que incentivou muitas crianças, e até mesmo adultos, a montarem seus autoramas, foi o título de campeão mundial conquistado por Emerson Fittipaldi em 1972.

A imagem de pilotos como José Carlos Pace, Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna e Rubens Barichello promoveu o brinquedo. O nome Autorama virou sinônimo de categoria e hoje faz parte do Dicionário Aurélio.

Nos anos 80, Piquet era a bola da vez e teve autoramas com seu nome:

No fim dos anos 80, Ayrton Senna ganhou o seu autorama. Tal era a febre que um dos lançamentos da estrela promovia o duelo entre os brasileiros: Piquet x Senna:

E claro, Ayrton Senna teve diversos autoramas:

Com o tempo, o brinquedo foi perdendo notoriedade, assim como também o desempenho dos pilotos brasileiros na Fórmula 1 foi decaindo após a morte de Senna em 1994. Ao contrário do que muita gente pensa, o Autorama não pode ser considerado somente um brinquedo. Existem equipes profissionais e campeonatos seríssimos de automobilismo de fenda. As pistas profissionais tem 48 metros de comprimento onde correm carrinhos em escala 1:24 ou 1:32 e que são alimentados por uma corrente elétrica de 13,8 volts. Esses carros são equipados por chassis de aço, carroceria em lexon ou acetato, pneus de borracha e motor elétrico.

Os modelos de carros mais sofisticados atingem a incrível marca dos 160 Km/h e o recorde de uma volta completa em um circuito oficial é de 1.59 segundo! Incrível, não?

O tempo de volta em uma pista oficial modelo Blue King que tem 47,24 m (155 pés) de extensão é feito em apenas 1,4 segundo e os carros mais rápidos aceleram de 0 a 100 km por hora em 0,4 segundos. Por isso ele é considerado o esporte a motor mais rápido do mundo em aceleração. Atualmente existem campeonatos oficiais no mundo todo sendo os principais o Campeonato Nacional Americano, o Campeonato Mundial, o Campeonato Europeu e o Campeonato Brasileiro. Temos no Brasil o maior e considerado melhor fabricante do mundo de pistas de madeira, a Slot Car Brasil, mas isso é outro papo. O nosso, claro, é brinquedo.

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